DOAÇÃO DOS DIREITOS DE AUTOR À ASSOCIAÇÃO CAIS

Cuidarei de TI!
A CAIS foi sempre um não-desistente suceder de modestos gestos na vida de quem,
disforme e refém da dor,
nunca se rendeu a uma inevitável e resignada ideia de si.

Factualidade: o superar da dor e da morte

Por influência de Michel Foucault e pelo meu trabalho de construção pessoal e colectiva no terreno, também eu deixei de acreditar, um dia, nas grandes narrativas, que se tiveram e ainda têm por alternativa ao momento actual, para apostar na transformação do nosso quotidiano, através de constantes, frágeis e anónimos pequenos gestos. Num destes fins-de-semana reflectia sobre a dor e a metafísica, debruçado sobre um texto do filósofo italiano, Gianni Vattimo. E assim relembrei, com maior clareza, dentro de mim, a eventualidade da nossa finitude, e de que não há nada de errado no ser humano, pelo facto deste nascer e morrer. Esta factualidade, desligada da metafísica, não dignifica o sofrimento humano, nem o racionaliza ou sublima, à luz de uma qualquer autenticidade humana ou divina, cuja revelação se possa fazer compreender ou aguardar. Talvez não faça mesmo sentido, como o pensava Jean-Paul Sartre, e talvez por isso, ela faça da história humana o desenrolar de uma luta, sem tréguas, na superação de si mesma, ou na superação da dor e até da própria morte – ainda que possa não ser do interesse dos humanos viver para sempre neste planeta (As intermitências da morte, José Saramago).

CAIS: um campo de oportunidades

Em 15 anos de vida, a CAIS nunca quis ser alternativa a nada. Teria sido um louco ou um patológico pretensiosismo desejar ser a solução para os problemas sociais do país ou ser líder de um movimento com esses objectivos.

Alicerçada sobre o que temos em comum, a fragilidade humana e o direito-dever de nos darmos uma forma, a CAIS foi sempre um não-desistente suceder de modestos gestos na vida de quem, disforme e refém da dor, nunca se rendeu a uma inevitável e resignada ideia de si. Tendo-se tornado, no cuidado de si, uma força constituída pelo esforço de quem entendeu fazer da CAIS, a sua forma de se relacionar com o outro, que não lhe é igual nem próximo, a CAIS foi ganhando, ao longo do tempo, relevância e sustentabilidade. Se a CAIS, enquanto missão a favor de quem é ou está sem abrigo, tem hoje uma história de 15 anos para contar, é porque alguém acreditou, investiu e tornou, de forma surpreendente e oblativa, num gesto seu, o poder transformador de cada um dos seus actos. De outra forma, a CAIS não teria chegado tão longe (ainda que não saibamos onde), neste árduo trabalho que é ser campo de oportunidades, no acesso a uma maior segurança, na superação da vulnerabilidade de cada um, e a uma construção de si, sustentada pelo consenso e a colaboração da sociedade civil no seu todo.

Change makers

Por isso, numa altura em que o seu primeiro grande instrumento de capacitação (a revista CAIS) vê 15 anos passados (Dezembro de 1994 – Dezembro de 2009), a CAIS agradece e elogia a importância do cuidado prestado por milhares de pessoas residentes sobretudo em Portugal, aos que directamente têm beneficiado desta oportunidade – os vendedores da CAIS. Falamos, antes e mais, dos que, ao longo dos anos, têm colaborado generosamente na produção de cada nova edição da CAIS. São eles a verdadeira redacção da CAIS, ainda que não habitem fisicamente as nossas instalações, um precioso e fundamental grupo de pessoas, sem o qual a revista não conseguiria ganhar corpo, mês após mês, ano após ano.

Sabemos também, pela boca dos vendedores, sobretudo dos que nunca puderam deixar de vender a revista e exercer um outro trabalho, por razões de saúde e de idade, que a relação que alguns têm com o nosso público leitor dura há anos e que esta, com o passar do tempo, se foi tornando numa verdadeira e sólida relação de amizade da qual se tem saudades quando, por algum motivo, vendedor e comprador não conseguem encontrar-se. Mas se por um lado, os vendedores nos levam a conhecer os rostos de quem cuida regular e incondicionalmente deles, por outro, eles são também porta-vozes dos efeitos que o conteúdo editorial da revista vai tendo nos que adquirem a revista, a retiram do plástico e ousam lê-la. Despertar no público uma consciência maior sobre a nossa relação com o outro, com a exigência materializada de um cuidado recíproco, que advém da mesma, foram e continuarão a ser, no tempo, a intenção por detrás de cada artigo, de cada foto reportagem.

Ser visto na rua, com a CAIS na mão, não fará de ninguém melhor pessoa, porque como diz o ditado, o hábito não faz o monge, mas acredito que ao contrario de quem passeia jornais e revistas de fim-de-semana, esta seja reveladora de uma vontade que mais não deseja que fazer parte do grupo dos que se vivem e têm por change makers ou transformadores da realidade presente – ainda que alguém se demore nesta intenção e até nunca consiga, por alguma razão, libertar-se dela.

O sucesso como narrativa

Nesta edição, dedicada aos 15 anos da revista CAIS, partilhamos, com os nossos leitores, algumas histórias de vida. Creio ser óbvio o facto de serem 15, mas já não será tão clara a razão de ser destas e não de outras histórias.

Pedem-nos, frequentemente, que calculemos o sucesso do nosso trabalho, sendo o sucesso, na cabeça de quem nos questiona, igual à integração no mercado de trabalho das pessoas que passam por nós. Mas se não só de pão, também não só de trabalho vive o ser humano. Por isso, o sucesso, no nosso meio, não se mede, nem de pode medir, o que significa que estas histórias não estão aqui, porque reveladoras deste tipo de sucesso, ao contrário de outras. Uma vida que se narra é já em si mesma, uma vida de sucesso. O insucesso reside sobretudo na vida que nada tem para contar de si, da que nunca se projectou e concretizou numa particular forma, e que, por conseguinte, não se vive, narrando-se. Mas uma vida assim não existe. Seria impossível. Por isso, toda a vida que é vida já é uma vida de sucesso.

Ao revelar o seu centro, a missão à volta da qual gira todos os dias, a CAIS procura ouvir, acolher e amar a narrativa dos que atracam dentro dela, para que depois de algum tempo gasto na revisão de cada individuo, a vida se faça ao mundo e possa ainda ter muito mais para contar, mas com maior segurança e maior realização pessoal e colectiva.

Henrique Pinto